quinta-feira, 21 de março de 2013

O normal e seus duplos - Manipulações de Georges Canguilhem

Manipulação do livro O normal e o patológico de Georges Canguilhem 



[Programação] 


22/3/2013 - O filósofo médico. A patologia como questão de valor. 
Apresentador: Silas Borges Monteiro
Moderador: Ângela Fontana Velho
 Local: Sala 9 - IE - UFMT

5/4/2013 - O duplo normal - patológico.
Apresentadoras: Emília Carvalho Leitão Biato e Vanessa Proença
Moderadora: Márcia Helena de Moraes Souza
Local: Sala 10 - IE - UFMT

19/4/2013 – A experiência de normalização
Apresentadoras: Elisabet Aguirre e Aline Campos
Moderadora: Regina Olea

3/5/2013 – Oficina Teatral “Normose” – As fronteiras entre normalidade e loucura.
Apresentadora: Thaísa Soares

segunda-feira, 4 de março de 2013

A escritura e a diferença: uma leitura de Jacques Derrida


Silas Borges Monteiro
Coordenador do EFF


Aqui pretendo fazer um resumo do pequeno, mas importante livro de Evando Nascimento cuja intenção é introduzir o pensamento de Jacques Derrida. Tomarei a liberdade de apenas indicar a referência, sem os cuidados da notações técnicas, para dar agilidade ao texto. Quando o contrário impelir-me, farei todas as honras à ABNT.
Tem de ser dito, de início, que Jacques Derrida é de família judia. Isso não é pouca coisa nos anos 1930. Experiências de segregação; é adolescente durante a segunda guerra; nasce num país que é colônia da França. E para colocar mais farinha nesse caldo, recebe nome americano. Há muitos nós que precisam ser rompidos quando se nasce numa circunstância dessa.

Uma vida, um estilo
Mas, vamos lá. Nasceu em 15 de julho de 1930, na cidade de El Biar, Argélia (informações da cidade e da naturalidade de Jacques Derrida).
Vejam que a vida de um filósofo deve ser tratada em seu movimento com o texto. Isto não quer dizer que o texto seja uma resposta aos seus dramas pessoais, mas sim que a vida dá um estilo de pensamento. Recorro a três afirmações que ajudam-me a montar uma ideia sobre a arte do estilo, e as apresento aqui por ordem de antiguidade.

Primeira ideia
Direi ao mesmo tempo uma palavra geral sobre a minha arte do estilo. Comunicar um estado, uma tensão interna de phatos por meio de signos, incluído o tempo desses signos – eis o sentido de todo estilo; e considerando que a multiplicidade de estados interiores é em mim extraordinária, há em mim muitas possibilidades de estilo – a mais multifária arte do estilo de que um homem já dispôs. Bom é todo estilo que realmente comunica um estado interior, que não se equivoca nos signos, no tempo dos signos, nos gestos – todas as leis do período são arte dos gestos. Nisso meu instinto é infalível. Bom estilo em si – pura estupidez, mero “idealismo”, algo assim como o “belo em si”, como o “bom em si”, como a “coisa em si”… (Nietzsche, Ecce Homo, “Por que escrevo livros tão bons”§ 4)
Inicialmente, estilo têm sentido pois comunicam as forças afetuosas dos corpos; quanto maior a quantidade de estados interiores, maior a possibilidade de estilos. Portanto, um estilo não decorre do domínio de uma forma, mas da multiplicidade de tensões internas. Por esta razão penso que maior será a possibilidade de novidade de estilos quanto mais numeroso venha a ser a exposição às tensões, e isso pode vir pelo contato com o diverso da arte.


Segunda ideia
Dizemos isto, fazemos aquilo: que modo de existência isso implica? Há coisas que só se pode fazer ou dizer levado por uma baixeza de alma, uma vida rancorosa ou por vingança contra a vida. Às vezes basta um gesto ou uma palavra. São os estilos de vida, sempre implicados, que nos constituem de um jeito ou de outro. (Deleuze, 1992, p. 126)
Um estilo está em feitos, em ditos. Estilos está além da formalidade gramatical para tomar corpo em corpos. Corpos possuem estilos; vidas possuem estilos. É a baixeza ou a altivez da vida que o que fazer dela. Somos assim, assim, por gestos e palavras de nosso estilo de vida.

Terceira ideia
É, portanto, a pluralidade de estilos, gêneros, tropos e ritmos – textos curtos ou longos, frases interrompidas, traços longos ou espaços em branco entre os aforismos, metáforas, níveis diferentes de escrita, alusões, etc. -, que servem para escritura de Nietzsche como meio de expressar um pensamento que é, em si, pluralista. (Olini, 2012, p. 42)
Pensamentos possuem estilos, visto em seu ritmo, suas opções, seus lugares, seu movimento: dada a intensidade de exposições se terá a virulência ou contaminação dele; dada a diversidade de exposições haverá sua pluralidade.
Ora, Derrida tem estilo refinado. Escreve como escreve por que quer fazer o que quer fazer. Ele dirá que escrever não é apenas saber que pela escritura seja feito o melhor, em termos de movimento da vontade ou da expressão:
É também não poder fazer preceder absolutamente o escrever pelo seu sentido: fazer descer deste modo o sentido mas elevar ao mesmo tempo a inscrição. (...) Escrever é saber que aquilo que ainda não está produzido na letra não tem outra residência, não nos espera como prescrição em qualquer Topos oupanion (localização última) ou qualquer entendimento divino. O sentido deve esperar ser dito ou escrito para se habitar a si próprio e tornar-se naquilo que a diferir de si é: o sentido. É o que Husserl nos ensina a pensar em A Origem da Geometria. O ato literário reencontra assim na sua origem o seu verdadeiro poder. (Derrida, pp. 13-14)
Portanto, o estilo da escrita derridiana não carrega sentido prévio, pois sabe que seu sentido habita a simultaneidade do ato de escrever. Com isso, a escritura não carrega um sentido dado anteriormente, nem nasce de um sentido: o sentido é parido no ato da escrita, movimentado pelo estilo. Logo, o estilo está na origem: o sentido é locatário involuntário do escrevedor, e toma vida própria. Isso é, ao mesmo tempo, para Derrida, tranquilizante e desesperador. Parece que isso é notado no estilo derridiano, com seus buracos, lacunas, incompletudes do texto: quer, pelo estilo, criar um sentido para além do sentido.
Daí minha concordância com Nascimento da dificuldade que se encontra em localizar Derrida no panteão dos herdeiros dos debatedores da ágora grega do século V a.C. Esses amigos da sabedoria têm a marca do discurso público e racional, do esforço de dizer o que obedece um sentido prévio. Este é o estilo da filosofia. Não é este o estilo derridiano. Também concordo que o papel da literatura não é nem o de relacionar filosofia e literatura, nem o de ilustrar um pelo outro. Talvez no rastro de Heidegger quer colocar estes discursos lado a lado para criar uma margem entre eles, justamente para situar seu discurso como discurso de margem; como afirma, ele caminha na direção de filósofos que (…) interrogam a filosofia para além do seu querer dizer, não a tratam somente como um discurso, mas como um texto determinado, inscrito num texto geral, encerrado na representação da sua própria margem. O que obriga não apenas a ter em conta toda a lógica da margem, mas a tê-la numa conta totalmente diferente; a relembrar sem dúvida que para além do texto filosófico não há uma margem branca, virgem, vazia, mas um outro texto, um tecido de diferenças de forças sem nenhum centro de referência presente (tudo aquilo de que se dizia — a "história", a "política”, a “economia”, a "sexualidade" etc — que não estava escrito nos livros: essa deformação com a qual não se terminou, parece, de fazer marcha atrás, nas argumentações mais regressivas e em lugares aparentemente imprevisíveis); mas também que o texto escrito da filosofia (desta vez nos seus livros) excede e faz quebrar o seu sentido.
Isso quer dizer que a filosofia e seu texto, na escrita derridiana, não tenha sentido. Ela tem sentido não como um sentido depositado, mas como sentido habitado, vivente no texto, e que se inquieta ao ser posto à margem de outros discursos. Com isso, quer que a filosofia seja vista como texto entre outros textos, e que deve ser tratado como lógica da margem, isto é, sua operação joga com o que é interno e externo. Seu sentido sempre vazará dos limites filosóficos, pois não é controlado por um centro de força, mas sim pela instabilidade gravitacional. Ora, por isso seu texto sempre dará vertigens, pois não tratará de tema de competência significativa dadas pela sociedade ou pela história, mas estará sempre em criação autoral. Não se faz isso a priori; isso é criação de trajeto.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Desassossego...


Bolsista de iniciação Científica


Vamos falar de vida, incitar devires, criação... bem como falar da contra-hegemonia, da nudez, do taboo e da controvérsia. A evocação do cadáver no grito, no choro, no gemido e na força do chão em atritos...  O corpo esgotado em crises, devastado, desesperado. O corpo tensiona, resiste e transgride à dominação pela seiva da morte. Ou na potência da vida? No limítrofe da vida, a morte; nas fronteiras últimas da morte, outra vida. Na recusa do corpo saudável, sua trans-gressão/figuração, as dobras, o contraste e a distorção do ocidente tecnológico e modernizado. Quais são as linhas de fuga? Tácito-sensível-estético... corpos assombrados, machucados, debilitados, envelhecidos, padecidos/afetivamente apodrecidos etc., são todos polemicamente bem-vindos, antes mesmo, na prioridade estética, aos corpos vigorosos de potenciais bailarinos.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Dispersão de vozes

Alessandra Christina Arantes Abdala Azevedo
Bolsista de Mestrado do Projeto Escrileituras


Dispersão.  Esta talvez seja a palavra que melhor expressa esta resenha.  Característica  relacionada ao filósofo e teórico literário franco-argelino, Jacques Derrida. Alguém que se propôs a criar um ritmo de percursividade ao texto: “Tenho escrito muitos textos com  vozes díspares, e a espacialidade é visível neles. Há várias  pessoas  falando,  e  isso  implica uma  força  de  dispersão  de  vozes,  tons,  que produz automaticamente espacialidade” 
Percorri uma pequena parcela da vasta bibliografia nos deixada por Derrida e percebi que seus livros são rastros, ou melhor pistas. Quanto mais os lia, com o desejo de encontrar respostas, mais megulhava em questões abissais. E assim me chegou o livro “No escribo sin luz artificial”. Uma coletânea de entrevistas, feita em momentos distintos que acenaram a possibilidade de Saber de Derrida através da sua fala - que melhor representa a tradução da sua escritura – Para mim funcionou como se estivéssemos numa conversa [literalmente, versando a dois ], pois tornou-se possível, conhecê-lo [e admirá-lo], um pouco melhor. 
Por força da minha formação inicial – sou graduada em Fonoaudiologia -  até chegar a este livro, ainda procurava um método. Apesar de Derrida alertar da “cilada” que consiste em usar todas as nossas garantias de racionalidade, querer encaixar e pensar nas garantias, racionais, o que acaba nos encaminhando para o pensamento metafísico. Evoco palavras do Prof. Silas Borges Monteiro – partilhadas em sala de aula -  que diz diante de um texto de Derrida, só são possíveis, as interjeições. Uau! Segundo sua explanação, Derrida usa como estratégia esse modo de dizer das coisas que podem ser ditas de maneira que são e ao mesmo tempo não são. Se por um lado, esta forma demonstra seu estilo; por outro lado é um convite ao leitor para que diga o que tem a dizer. 
DO TEXTO:
A entrevista intitulada de Dispersão de vozes, foi originalmente concebida sob o título de “Las Artes Del Espacio” concedida em Laguna Beach, Califórnia em 28 de abril de 1990 a Peter Brunette e David Wills e publicada inicialmente em: Desconstrução e artes Visuais da Universidade de Cambridge em 1994, cap. 1,  p. 9-32. Em 1999, Derrida agregou-a outras entrevistas e as converteu em um livro: No escribo sin luz artificial. Valladoliz: Ediciones Mauricio Jalón; ainda sem tradução para o português
O cenário de fundo para esta entrevista estava relacionado as artes do espaço.Como primeira provocação, os entrevistadores o arguem sobre o fato de sua proclamada “incompetência técnica” em vários âmbitos do seu trabalho (por exemplo: sobre arquitetura, cinema), não funcionar como impeditivos para que escreva sobre um amplo número de assuntos que estão “fora” de sua formação. É provocado para definir os limites do que ele traz  a cada domínio, sem saber onde colocar exatas, tais limites.
Derrida responde esta questão partindo da sua competência fornecida pela formação filosófica, Afirma, ter inventado um certo programa, uma certa matriz de investigação  que permite começar a pensar sobre as questões – perguntas sobre a competência em termos gerais. 
Ao aproximar-se de uma obra literária, Derrida ressalta apresentar sempre o mesmo gesto: o de sempre tentar respeitar a singularidade de uma obra. Este gesto é para encontrar, ou pelo menos procurar, o que este trabalho é, o seu poder de resistência à autoridade exercida pelo discurso filosófico sobre o assunto. 
O mote desta arguição,  fala sobre “ARTES VISUAIS”. Derrida as contextualiza dentro das artes espaciais; e como questão geral das artes do espaço, porque, para ele a resistência à autoridade filosófica parece ser produzida dentro de uma certa experiência de se espacializar o espaço. Em outras palavras, a resistência ao logocentrismo tem uma melhor chance de aparecer nesta arte.

Referências Bibliográficas
DERRIDA. No escribo sin luz artificial. Valladoliz: Ediciones Mauricio Jalón, 1999.




segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Vídeo da audição The Dark Side of the Moon.


Vídeo exibido na UFMT em 21 de janeiro de 2013 pelo aniversário de 40 anos de gravação da canção The Great Gig in the Sky. EFF - Grupo Estudos de Filosofia e Formação.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

"Sem música, a vida para mim seria um erro"


Silas Borges MonteiroCoordenador do EFF
Texto de abertura da Audição do álbum The Dark Side of the Moon
21 de janeiro de 2013

Em uma carta escrita a Georg Brandes, no dia 27 de março de 1888 desde Niza, Nietzsche assim se expressa: “Sem música, a vida para mim seria um erro.” (Carta 1009. A Georg Brandes em Copenhague). A mesma frase aparece em Crepúsculo dos ídolos (§ 33). Também no póstumo 16 [24]. Por que seria a música tão importante para o filósofo alemão? Em sua opinião, música e conceitos estão em relação recíproca. A música é capaz de romper os limites da experiência individual, levando a pessoa a experimentar-se fora do ordinário, do comum, do já conhecido. Sua posição com respeito à música nasce do conhecimento que tinha da tragédia grega, cuja obra recebe o duplo impulso da forma e do excesso, dos deuses Apolo e Dioníso. Por isso dirá em seu curso sobre Sófocles: “a lei da medida arquitetônica na música é característica da arte apolínea e o puramente musical, sim, o caráter patético do tom, da dionisíaca.” (2a. aula) Depois de abandonar Wagner e sua música, encontrará em Bizet seu remédio: “Realmente, a cada vez que ouvi Carmen, eu parecia ser mais filósofo, melhor filósofo do que normalmente me creio: tornando-me tão indulgente, tão feliz, indiano, sedentário…” (O caso Wagner § 1) E mais adiante: “Bizet me faz fecundo. Tudo que é bom me faz fecundo”. (§ 1)
Reconheço este pathos em mim. Ao ouvir Nietzsche, parece que ouço meus próprios instintos. Não porque julgue que nos identificamos, ou me ache muito nietzschiano. Certamente não. Mas, por sofrer de um tremendo narcisismo, ouço as ideias sempre, de algum modo, a partir de minhas vivências. E nesse caso, comungo destas vivências de Nietzsche.
Minha memória seletiva encontra algumas canções que me acometiam. Meu pai cantando, para que eu dormisse, junto com seu violão Prece ao Vento do Trio Nagô, liderado por Evaldo Gouveia (de 1959), Benito de Paula, quando fazia sucesso, Bee Gees (gosto de minha mãe) e a música pop americana que minha irmã, quatro anos mais velha, ouvia. Além dos cantores brasileiros que se apresentavam como americanos: Morris Albert, Christian e outros. Também aprendi a ouvir Beatles com o seu álbum Abbey Road. Procurava discos das trilhas das novelas, nacionais e internacionais. Ou seja, julgava-me alguém de gosto comum e modesto.
Mas aos 14 anos, fui apresentado por um amigo, Reinaldo Takara Zoppei, hoje professor na UFMT de Rondonópolis, a um álbum: The Dark Side of the Moon, da, completamente desconhecida por mim, Pink Floyd. O álbum tinha menos de quatro anos.
Fui assolado pela música. Meus limites de gosto foram rompidos. A sonoridade, o ritmo, os ruídos e sons do álbum chegaram com uma potência nunca experimentada por mim. Ouvi o álbum inteiro. Embora ainda tenha flertes com os estilos da infância (com uma mudança significativa, é certo), não consigo encontrar em nenhuma outra música o que tenho com a sonoridade criada por Pink Floyd.
Conto isso por entender, como Nietzsche, que a música compartilha com a palavra o impulso para o pensamento. Músicas óbvias e letras ordinárias prendem a pessoa numa imensa lama de senso comum. Por isso, aposto na possibilidade de, ao fazer uma audição como esta, novos estilos de individuação sejam disparados. Este é um evento de cultura e arte, mas, claro, também de formação. Ao compartilhar este álbum, espero fazer circular novo pensamento, novo estilo, novo gosto.
Tudo começou quando estava em um voo a caminho de Cuiabá, enquanto lia o livro de John Harris: The Dark Side of the Moon. Os bastidores da obra-prima do Pink Floyd. Nele vi a informação que, por incrível que pareça, para uma geração que tem ao dispor o Mr. Google, li, pela primeira vez, notícias detalhadas sobre a gravação da música que mais amo do álbum: The Great Gig in the Sky. Li detalhes sobre Clare Torry e seu vocal, e chamou-me a atenção o dia em que ela gravou sua participação: 21 de janeiro de 1973. Marquei a data em minha agenda: todo ano celebraria o dia como uma das datas significativas do ano.
No fim do ano passado, durante planejamento do reinício do semestre em 21 de janeiro, ao comentar com uma colega sobre a importância da data, imediatamente tive a ideia de torná-la um acontecimento do álbum. Só depois de ter deflagrado o processo me dei conta de que a gravação da música, e a última feita para o álbum, fazia 40 anos. Comecei a procurar material para entrar no clima do álbum. Procurei livros, informações na rede e tantas outras.
Pois bem, no dia 21 de janeiro, há exatos 40 anos, a última faixa foi gravada do álbum The Dark Side of the Moon, com a criação vocal de Clare Torry. Era um domingo. Clare chegou ao estúdio em torno das 19h. Com alguma orientação geral, Clare recebeu a sugestão de fazer um vocal angustiante. Ela teria comentado com um amigo que não entendia porque haviam gostado da performance dela, pois parecia um gato irritado. Ela achou que não iriam usar sua gravação. Descobriu que foi usada no disco quando ouviu a música em uma loja de discos.
A orientação que deram indica o que haviam tematizado no disco: a experiência humana no limite, a dificuldade da sociedade em pensar a diferença, a facilidade com que rótulos são postos nas pessoas. Perda, angústia mas, ao mesmo tempo, a imensa vontade de vida, da vida que afirma a si mesma, da vida cuja potência esteja a empenho da constituição de si, sabendo o preço que se paga por isso. Sob certa influência de Ronald Laing, um antipsiquiatra londrino, acostumado a atender jovens cujas famílias julgavam “perturbados”; sua intervenção tendia a mostrar a naturalidade do que a cultura e os valores morais rotulavam como patológico.
Para nós, com essa atividade, além da celebração do aniversário de gravação da Clare Torry e da finalização do álbum, este evento inaugura o ano de trabalho do EFF: nosso tema é a experiência de exorbitância, principalmente de casos que a sociedade e o sistema médico insistem em rotular como patológicos.
Convido a todos a esta experiência musical e teórica. Foram convidadas pessoas ligadas à Universidade que aprenderam apreciar esta belíssima peça. A palavra está aberta.
Sejam bem-vindos.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Audição THE DARK SIDE OF THE MOON

Dia 21 de janeiro fará 40 anos que a música The Great Gig in the Sky foi gravada, finalizando, assim, o trabalho de estúdio da banda Pink Floyd no celebrado álbum The Dark Side of the Moon. O EFF fará uma audição que celebra este gesto de criação do pensamento. Será na próxima segunda, no Instituto de Educação da UFMT.



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Escritura, vida e constituição de si: a arte do estilo


Polyana C. Olini
Pesquisadora participante dos Núcleos UFRGS e UFMT 
do Projeto Escrileituras: um modo de "ler-escrever" em meio a vida 

A arte do estilo toma do corpo do autor sua escritura. Refere-se à diversidade de seus estados internos e, consequentemente, às possibilidades de expressá-los textualmente. A escritura se caracteriza por exceder aquilo que se entendia até então como linguagem. A variação contínua presente na escritura e no estilo é o que permite pensar aqui os projetos filosóficos e as vivências como formação de si mesmo, e portanto como constituintes de maneiras subjetivas e plurais de cultivar e de afirmar a própria vida. Refiro-me a constituição de si, isto é, ação que, por meio da escritura e dos elementos que a circundam, com todas as suas banalidades e seus egoísmos, é força constitutiva do vir a ser o que se é. Em vista disso, o texto de minha dissertação de mestrado, desenvolve tais elementos conceituais, experimentando o tema da constituição de si, perseguindo as ideias de escritura, (auto)biografia, (auto)formação, adotando as perspectivas da suspeita e da desconstrução. Do mesmo modo, é abordado o encontro com a margem vida-morte, a ruptura da distinção entre os discursos filosóficos e literários, bem como os discursos verbais e imagéticos. Nesse contexto, examina e explicita o sentido de gesto otobiográfico como método-labirinto.




OLINI, Polyana C. Escritura, vida e constituição de si: a arte do estilo. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2012.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Com pensar

Sandra Mara Corazza
Professora na UFRGS
Coordenadora geral do Projeto Escrileituras: 
um modo de "ler-escrever" em meio a vida

Um relâmpago se produz. E leva o nome de Deleuze. Depois de Nietzsche, o pensamento é de novo possível. Foucault saúda esse ato de pensar: “Um dia o século será deleuziano”. Toda a vida de Deleuze: o que é pensar? Não se trata de adquirir um saber superior, nem de refletir, contemplar, comunicar. Trata-se de criar, experimentar, viajar. Pensar a vida como puro acontecimento, acaso ou devir. Dar o que pensar diante da obstrução e mesmo exclusão do pensamento. Resgatar o pensamento das estruturas e das leis, da representação e dos modelos, do platonismo e do hegelianismo, do Homem e dos Universais. Fomentar um pensamento sem imagem, isto é, dionisíaco. Em luta contra o pensamento reativo, escravo, ressentido, como vontade de verdade. Contra os aparelhos de Estado, a Identidade, a Razão, a Moral. Pensamento em intensidade, da diferença livre, das repetições complexas. Do Eterno Retorno. Nada de regularidades. Bom-mocismo. Salvacionismo. Senso comum. Bom senso. Consenso. Produção de misturas loucas, desmesuradas, ardentes. Delírio. Como os loucos, os lobos, os infantis, os malditos, Gregor, Bartleby, M. Charlus. No céu estrelado do lance de dados de Zaratustra. Pensamento extemporâneo. Como um fogo que queima a memória e a história. Esfarela os controles miméticos instalados na alma e nas essências. Curta-circuita a mediocridade, a besteira, a mesmidade. Dança e dispara. Uma peste. Terrorista. Violento. Virótico. Colérico. Cruel. Convulsivo. Bacante. Insolente. Jubiloso. Afirmativo. Do riso e do risco. Como um gato se lava das sujeiras do Ser, da Consciência, do Negativo. Sem Ego, sem Édipo, sem Falta. Órfão, anarquista, ateu. Águia sobre o abismo. Pensamento-derrame. Dinamite. Escândalo político.