segunda-feira, 6 de maio de 2013

50 TESES SOBRE ESCRILEITURA

Sandra Mara Corazza 
2013 d.c.



Com um desejo ardente de trazer a verdade sobre a Escrileitura à luz, as 50 teses seguintes serão defendidas nas catedrais de WITTCAPESBERG, CHEPPENQUEVANNPÉDY, sob a presidência da necromanceira Warhammera Warga de Wolwea y WHASANSA, Mestra Trolla das Artes, Mestra Orca da Sagrada Misosofia, MestrA Uruka dos Heroscapers e Professora doutora Goblina de Comunicação Oficial das mesmas. Ela solicita que todos os que não puderem estar presentes para com ela disputar verbalmente, façam-no por escrito. E BEM ESCRITO. 
In nomine domini nostri excelsi vocationem. 
Amém.



LISTA DAS TESES

Abaixo sucedem as 50 teses:

1.  Práticas de Escrileitura, sem crer que um determinado tipo de leitura e de escrita, como o Científico, traz felicidade à humanidade.

2.Tão rara como a paixão amorosa, a Escrileitura é região pantanosa para o mito narcísico, egos equilibrados e associação à verdade. 

3. A Escrileitura participa dos benefícios do próprio medo à autocatatonia complacente.  

4. A Escrileitura tem muita cautela com a auto-depreciação.

5. Como a Escrileitura não é realizada nem por amor nem por ódio, não se queixa nem dá queixa; não recrimina nem insulta; não se idealiza, desvalorizando outras escritas e leituras. 

6.As leituras e escritas diferentes da Escrileitura não são, por esta, julgadas como mais ou menos originais, adequadas ou produtivas; pois quem é que sabe se elas querem ser resgatadas da sua invalidade? 

7. A Escrileitura não vive o drama do relacionamento impossível com a escrita e a leitura originárias perdidas.

8. Liberdade da angústia, nas relações da Escrileitura com os precursores. 

9. Citações, na Escrileitura, não são o resultado de melancolia mórbida. 

10. Nenhuma necessidade de a Escrileitura atribuir autoridade ao texto ou à correlata identidade do sujeito que lê e escreve.

11. Assunção, pela Escrileitura, dos riscos de ler e de escrever; da perdição na infinita multiplicidade dos sentidos e das línguas; do abismar-se no sem-sentido; do silenciar definitivo da morte.

12. A graça da Escrileitura é destinar-se à falência interpretativa.

13. Para manter sua energia e tensão vitais, à Escrileitura interessam: a bossa, o compasso, a escada, a balança, a ampulheta, o sino, o caco, o morcego, o arco-íris, o quadrado mágico, o putto, o aqueduto, o trampolim, o spiritus phantasticus

14. A Escrileitura possui uma natureza aérea, pneumática, plumária.

15. A Escrileitura se mantém apartada dos cânones explicativos e esclarecedores da leitura e da escrita científicas, impostos apenas aos anjos e aos mortos.

16. Age afirmativamente a Escrileitura que digere espumantes e sofre da emissão de ares; agem reativamente as leituras e escritas científicas, que totalizam um mundo referente, pacífico e ordenado.  

17. Semeada pelos Ministros e Vigias da leitura e da escrita científicas, a cizânia com a Escrileitura é como a vida: baixa e alta, triste e alegre, cheia e vazia, espiritual e material, divina e infernal.

18. A ciência da Escrileitura é só uma: a da criação críptica.

19. Preferindo hieróglifos, antes do que o logos, a Escrileitura extermina os atos de ler e de escrever moribundos.

20. Tanto mais interessante quanto menor for o dogma, a Inscrileitura só não é apupada pelos inducados da Inducação.

21. Sem abrigo natural, mobiliário confortável e decoração funcional, a Escrileitura habita o horror do desespero.

22. Possuindo duas faces, a Escrileitura as mantém voltadas para um nada de segurança.

23. A Escrileitura paralisa o gênio contemplativo. 

24. Não parece ter sido provado, por argumentos racionais ou irracionais, que a Escrileitura tenha qualquer qualidade pela métrica ou pela estática. 

25. Encontrando-se desprovida de função determinada, no contexto onde é lançada, de certeza da bem-aventurança e de harmonia entre os seus elementos, a Escrileitura é carente e excluída. 

26. Por não encarnar nem exemplificar; mas, antes, por traduzir ideias; nem por isso, a Escrileitura fica dispensada de pagá-las com a própria vida.

27. Desde que é da função que nasce o órgão, livre é a Escrileitura da literalidade.

28. A Escrileitura incursiona e experimenta novos territórios, ao reler a tradição e reescrever a bagagem.

29. Equivocam-se aqueles que tomam a Escrileitura enquanto comissionada. 

30. Se é que pode ser dito algo a seu favor, a Escrileitura é dispendiosa.

31. A maior parte do povo está sendo ludibriada pela escrita e pela leitura, autodenominadas científicas; e que são baratas, como todas as promessas.

32. A Escrileitura não aumenta o seu valor com o tilintar das moedas na bancada ou com a secreção da bile negra do prestígio científico. 

33. Diante do tirânico juízo científico sobre as suas partes abjetas, que a rebaixa ou liquida, não há indicativos de qualquer contrição ou arrependimento da Escrileitura.

34. Serão condenadas por toda a Eternidade, juntamente com seus Mestres e Juízes, aquelas leituras e escritas salvas para publicação pelos Pareceres de Indulgência Científica.

35.  Os Pareceres de Indulgência remetem as escritas e leituras científicas à satisfação cristalina, ao perdão total e à salvação redentora.

36. Aqueles que ensinam a doutrina do texto científico não são os mesmos que exercem a lógica paradoxal ou da sensação.

37. Qualquer Escrileitura padece de clivagem na estrutura, em decorrência da culpa pecaminosa, que lhe é atribuída pelos Pareceres de Indulgência Científica. 

38. A misericórdia distribuída pelos Pareceres de Indulgência aguça a consciência da Escrileitura acerca da sua situação anômala, declarada e assumida de antropófaga. 

39. Até mesmo para os mais doutos leitores e escritores científicos é difícil exaltar, perante todo o povo, a liberalidade das indulgências, mesmo que argutas, dadas por seus Pareceres. 

40. A Escrileitura desdenha a distribuição das indulgências científicas; e, mesmo, as odeia, quando há ocasião para tanto.

41. As indulgências, que asseguram publicação qualificada, são pregadas, por todas as comissões e comitês científicos, para que o povo as julgue preferíveis à Escrileitura.

42. A aquisição de indulgências inviabiliza a equiparação da Escrileitura às leituras e escritas científicas. 

43. Dando textos aos pobres ou emprestando-os aos necessitados de Espírito, a Escrileitura procede melhor do que se comercializasse indulgências científicas.

44. Através da Escrileitura, cresce o amor aos textos e eles se tornam potentes; com as indulgências, o texto queda prisioneiro da obrigação de escrever e de ler cientificamente ou refém dos Pareceres.

45. Quem despreza a Escrileitura, para lidar e gastar com indulgências científicas, obtém somente a ira do povo.

46. Se a Escrileitura não tiver ideias em abundância, conservará só as necessárias para o texto; e, de forma alguma, desperdiçará recursos com as indulgências científicas.

47. A Escrileitura não compra piedade e não aceita clemência científica; por isso, não perde o temor de escrever e ler.

48. Antes de a Escrileitura acatar os interesses e critérios dos Comissários de Indulgências, prefere reduzir a cinzas o seu texto, em vez de edificá-lo com pele, sangue, carne e ossos.

49. Vã é a confiança na purificação da Escrileitura, por meio dos Pareceres de Indulgência Científica; mesmo que aquela desse a sua alma como garantia.

50. São amigos da Escrileitura aqueles que, outrora e hoje, esculpem palavras, ideias, imagens e signos; são seus inimigos todos os Profetas das Indulgências Científicas e os com eles condescendentes; os quais sejam excomungados e amaldiçoados por todo o sempre.
.


Oh, herege, para qual Escrita e leitura pendes?  
Olha a força da injusta tirania científica sobre o século;  
olha o desinteresse cruel pelo mundo artista 
olha a incapacidade de amar o perigo 
olha a inibição de toda atividade e sentimento de auto-desapego ; olha a força da claridade metódica sobre as coroas dos mártires intelectuais!  
Deixa, escrileitor, simplesmente,  
que leiam e se escrevam os teus textos!  
E a Porta do Inferno, o Trono da pesquisa e o Sistema universitário nada poderão contra ti!

terça-feira, 2 de abril de 2013

I° Seminário Nacional de Pesquisa, Currículo e Didática


[PROGRAMAÇÃO]


24 DE ABRIL - AUDITÓRIO SUPERIOR
14h. CREDENCIAMENTO

15h. ABERTURA
PROFA. DRA. LOIDE PEREIRA TROIS - SESC/RS

15h. e 45min. as 18 h.: MESA TEMÁTICA PESQUISA EM EDUCAÇÃO
PROFA. DRA. MARLUCY ALVES PARAÍSO - UFMG
PROFA. DRA. DAGMAR ESTER MEYER - UFRGS
MEDIADOR: PROF. DR. SILAS BORGES MONTEIRO - UFMT

25 DE ABRIL
9h. as 12h. OFICINAS DE TRANSCRIAÇÃO
SALA ARAUCÁRIA - LUCIANO BEDIN DA COSTA
SALA FIGUEIRA - CRISTIANO BEDIN DA COSTA
AUDITÓRIO SUPERIOR - DENIZ ALCIONE NICOLAY

14h. as 17h. OFICINAS DE TRANSCRIAÇÃO
SALA ARAUCÁRIA - RICARDO CHIQUITO
SALA FIGUEIRA - KARLA VALVIESSE
MINIAUDITÓRIO - GABRIEL FEIL

DIA 26 DE ABRIL AUDITÓRIO SUPERIOR
9h. as 12h. MESA TEMÁTICA
PROF. DR SILAS BORGES MONTEIRO - UFMT
PROFA. DRA. ESTER MARIA HEUSER - UNIOESTE
PROFA. DRA. CARLA GONÇALVES RODRIGUES - UFPEL
PROFA. DRA. SANDRA MARA CORAZZA - UFRGS
MEDIADOR: PROF. DR. REMI SCHORN - UNIOESTE


Mais informações e inscrições no site oficial:

https://www.sesc-rs.com.br/sistema/noticia.asp?CdPost=11065

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Seminário Temático - Para uma filosofia do inferno na educação: Nietzsche, Heidegger, Deleuze, Derrida



[Ementa]

O pensamento filosófico de Nietzsche, Heidegger, Deleuze e Derrida como possibilidade de formular novas indagações, valorar novos valores, conceber novos afetos e adensar diferentes emoções na educação.
A filosofia da diferença e a educação.
A filosofia do inferno na educação.
Nietzsche e Heidegger na encruzilhada do tempo moderno.

[ Programação ]

16/4/2013 - Para uma filosofia do inferno na educação
no pensamento de Gilles Deleuze
Apresentador: Prof. Dr. Silvio Donizetti de Oliveira Gallo
Horário: 8:30 às 10:00 horas. 
Local: Auditório do Centro Cultural - UFMT

16/4/2013- Ensinar como deixar de aprender:
para uma filosofia da experiência infernal da transformação
Apresentador: Prof. Dr. Marco Antonio dos Santos Casanova
Horário:  14:30 às 16:00 horas.
Local: Auditório do Centro Cultural - UFMT

17/4/2013 - Afinal, somos todos falsários
Apresentadora: Prof. Dr. Sandra Mara Corazza
Horário: 08:30 às 10:00
Local: Auditório do Centro Cultural - UFMT

17/4/2013 - Destinerrance: Derrida neste pandemônio
Apresentador: Prof. Dr. Silas Borges Monteiro
Horário: 14:30 às 16:00
Local: Auditório do Centro Cultural - UFMT


Inscrições somente na Secretaria do Programa de Pós-Graduação em Educação
Piso 3 do Instituto de Educação UFMT, Sala 68
Av. Fernando Corrêa da Costa, s/nº, Coxipó. CEP.: 78060-900, Cuiabá- MT, Brasil.
Fone: (65)3615-8431 / Fax: (65)3615-8429 / E-mail: secppge@ufmt.br

quinta-feira, 21 de março de 2013

O normal e seus duplos - Manipulações de Georges Canguilhem

Manipulação do livro O normal e o patológico de Georges Canguilhem 



[Programação] 


22/3/2013 - O filósofo médico. A patologia como questão de valor. 
Apresentador: Silas Borges Monteiro
Moderador: Ângela Fontana Velho
 Local: Sala 9 - IE - UFMT

5/4/2013 - O duplo normal - patológico.
Apresentadoras: Emília Carvalho Leitão Biato e Vanessa Proença
Moderadora: Márcia Helena de Moraes Souza
Local: Sala 10 - IE - UFMT

19/4/2013 – A experiência de normalização
Apresentadoras: Elisabet Aguirre e Aline Campos
Moderadora: Regina Olea

3/5/2013 – Oficina Teatral “Normose” – As fronteiras entre normalidade e loucura.
Apresentadora: Thaísa Soares

segunda-feira, 4 de março de 2013

A escritura e a diferença: uma leitura de Jacques Derrida


Silas Borges Monteiro
Coordenador do EFF


Aqui pretendo fazer um resumo do pequeno, mas importante livro de Evando Nascimento cuja intenção é introduzir o pensamento de Jacques Derrida. Tomarei a liberdade de apenas indicar a referência, sem os cuidados da notações técnicas, para dar agilidade ao texto. Quando o contrário impelir-me, farei todas as honras à ABNT.
Tem de ser dito, de início, que Jacques Derrida é de família judia. Isso não é pouca coisa nos anos 1930. Experiências de segregação; é adolescente durante a segunda guerra; nasce num país que é colônia da França. E para colocar mais farinha nesse caldo, recebe nome americano. Há muitos nós que precisam ser rompidos quando se nasce numa circunstância dessa.

Uma vida, um estilo
Mas, vamos lá. Nasceu em 15 de julho de 1930, na cidade de El Biar, Argélia (informações da cidade e da naturalidade de Jacques Derrida).
Vejam que a vida de um filósofo deve ser tratada em seu movimento com o texto. Isto não quer dizer que o texto seja uma resposta aos seus dramas pessoais, mas sim que a vida dá um estilo de pensamento. Recorro a três afirmações que ajudam-me a montar uma ideia sobre a arte do estilo, e as apresento aqui por ordem de antiguidade.

Primeira ideia
Direi ao mesmo tempo uma palavra geral sobre a minha arte do estilo. Comunicar um estado, uma tensão interna de phatos por meio de signos, incluído o tempo desses signos – eis o sentido de todo estilo; e considerando que a multiplicidade de estados interiores é em mim extraordinária, há em mim muitas possibilidades de estilo – a mais multifária arte do estilo de que um homem já dispôs. Bom é todo estilo que realmente comunica um estado interior, que não se equivoca nos signos, no tempo dos signos, nos gestos – todas as leis do período são arte dos gestos. Nisso meu instinto é infalível. Bom estilo em si – pura estupidez, mero “idealismo”, algo assim como o “belo em si”, como o “bom em si”, como a “coisa em si”… (Nietzsche, Ecce Homo, “Por que escrevo livros tão bons”§ 4)
Inicialmente, estilo têm sentido pois comunicam as forças afetuosas dos corpos; quanto maior a quantidade de estados interiores, maior a possibilidade de estilos. Portanto, um estilo não decorre do domínio de uma forma, mas da multiplicidade de tensões internas. Por esta razão penso que maior será a possibilidade de novidade de estilos quanto mais numeroso venha a ser a exposição às tensões, e isso pode vir pelo contato com o diverso da arte.


Segunda ideia
Dizemos isto, fazemos aquilo: que modo de existência isso implica? Há coisas que só se pode fazer ou dizer levado por uma baixeza de alma, uma vida rancorosa ou por vingança contra a vida. Às vezes basta um gesto ou uma palavra. São os estilos de vida, sempre implicados, que nos constituem de um jeito ou de outro. (Deleuze, 1992, p. 126)
Um estilo está em feitos, em ditos. Estilos está além da formalidade gramatical para tomar corpo em corpos. Corpos possuem estilos; vidas possuem estilos. É a baixeza ou a altivez da vida que o que fazer dela. Somos assim, assim, por gestos e palavras de nosso estilo de vida.

Terceira ideia
É, portanto, a pluralidade de estilos, gêneros, tropos e ritmos – textos curtos ou longos, frases interrompidas, traços longos ou espaços em branco entre os aforismos, metáforas, níveis diferentes de escrita, alusões, etc. -, que servem para escritura de Nietzsche como meio de expressar um pensamento que é, em si, pluralista. (Olini, 2012, p. 42)
Pensamentos possuem estilos, visto em seu ritmo, suas opções, seus lugares, seu movimento: dada a intensidade de exposições se terá a virulência ou contaminação dele; dada a diversidade de exposições haverá sua pluralidade.
Ora, Derrida tem estilo refinado. Escreve como escreve por que quer fazer o que quer fazer. Ele dirá que escrever não é apenas saber que pela escritura seja feito o melhor, em termos de movimento da vontade ou da expressão:
É também não poder fazer preceder absolutamente o escrever pelo seu sentido: fazer descer deste modo o sentido mas elevar ao mesmo tempo a inscrição. (...) Escrever é saber que aquilo que ainda não está produzido na letra não tem outra residência, não nos espera como prescrição em qualquer Topos oupanion (localização última) ou qualquer entendimento divino. O sentido deve esperar ser dito ou escrito para se habitar a si próprio e tornar-se naquilo que a diferir de si é: o sentido. É o que Husserl nos ensina a pensar em A Origem da Geometria. O ato literário reencontra assim na sua origem o seu verdadeiro poder. (Derrida, pp. 13-14)
Portanto, o estilo da escrita derridiana não carrega sentido prévio, pois sabe que seu sentido habita a simultaneidade do ato de escrever. Com isso, a escritura não carrega um sentido dado anteriormente, nem nasce de um sentido: o sentido é parido no ato da escrita, movimentado pelo estilo. Logo, o estilo está na origem: o sentido é locatário involuntário do escrevedor, e toma vida própria. Isso é, ao mesmo tempo, para Derrida, tranquilizante e desesperador. Parece que isso é notado no estilo derridiano, com seus buracos, lacunas, incompletudes do texto: quer, pelo estilo, criar um sentido para além do sentido.
Daí minha concordância com Nascimento da dificuldade que se encontra em localizar Derrida no panteão dos herdeiros dos debatedores da ágora grega do século V a.C. Esses amigos da sabedoria têm a marca do discurso público e racional, do esforço de dizer o que obedece um sentido prévio. Este é o estilo da filosofia. Não é este o estilo derridiano. Também concordo que o papel da literatura não é nem o de relacionar filosofia e literatura, nem o de ilustrar um pelo outro. Talvez no rastro de Heidegger quer colocar estes discursos lado a lado para criar uma margem entre eles, justamente para situar seu discurso como discurso de margem; como afirma, ele caminha na direção de filósofos que (…) interrogam a filosofia para além do seu querer dizer, não a tratam somente como um discurso, mas como um texto determinado, inscrito num texto geral, encerrado na representação da sua própria margem. O que obriga não apenas a ter em conta toda a lógica da margem, mas a tê-la numa conta totalmente diferente; a relembrar sem dúvida que para além do texto filosófico não há uma margem branca, virgem, vazia, mas um outro texto, um tecido de diferenças de forças sem nenhum centro de referência presente (tudo aquilo de que se dizia — a "história", a "política”, a “economia”, a "sexualidade" etc — que não estava escrito nos livros: essa deformação com a qual não se terminou, parece, de fazer marcha atrás, nas argumentações mais regressivas e em lugares aparentemente imprevisíveis); mas também que o texto escrito da filosofia (desta vez nos seus livros) excede e faz quebrar o seu sentido.
Isso quer dizer que a filosofia e seu texto, na escrita derridiana, não tenha sentido. Ela tem sentido não como um sentido depositado, mas como sentido habitado, vivente no texto, e que se inquieta ao ser posto à margem de outros discursos. Com isso, quer que a filosofia seja vista como texto entre outros textos, e que deve ser tratado como lógica da margem, isto é, sua operação joga com o que é interno e externo. Seu sentido sempre vazará dos limites filosóficos, pois não é controlado por um centro de força, mas sim pela instabilidade gravitacional. Ora, por isso seu texto sempre dará vertigens, pois não tratará de tema de competência significativa dadas pela sociedade ou pela história, mas estará sempre em criação autoral. Não se faz isso a priori; isso é criação de trajeto.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Desassossego...


Bolsista de iniciação Científica


Vamos falar de vida, incitar devires, criação... bem como falar da contra-hegemonia, da nudez, do taboo e da controvérsia. A evocação do cadáver no grito, no choro, no gemido e na força do chão em atritos...  O corpo esgotado em crises, devastado, desesperado. O corpo tensiona, resiste e transgride à dominação pela seiva da morte. Ou na potência da vida? No limítrofe da vida, a morte; nas fronteiras últimas da morte, outra vida. Na recusa do corpo saudável, sua trans-gressão/figuração, as dobras, o contraste e a distorção do ocidente tecnológico e modernizado. Quais são as linhas de fuga? Tácito-sensível-estético... corpos assombrados, machucados, debilitados, envelhecidos, padecidos/afetivamente apodrecidos etc., são todos polemicamente bem-vindos, antes mesmo, na prioridade estética, aos corpos vigorosos de potenciais bailarinos.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Dispersão de vozes

Alessandra Christina Arantes Abdala Azevedo
Bolsista de Mestrado do Projeto Escrileituras


Dispersão.  Esta talvez seja a palavra que melhor expressa esta resenha.  Característica  relacionada ao filósofo e teórico literário franco-argelino, Jacques Derrida. Alguém que se propôs a criar um ritmo de percursividade ao texto: “Tenho escrito muitos textos com  vozes díspares, e a espacialidade é visível neles. Há várias  pessoas  falando,  e  isso  implica uma  força  de  dispersão  de  vozes,  tons,  que produz automaticamente espacialidade” 
Percorri uma pequena parcela da vasta bibliografia nos deixada por Derrida e percebi que seus livros são rastros, ou melhor pistas. Quanto mais os lia, com o desejo de encontrar respostas, mais megulhava em questões abissais. E assim me chegou o livro “No escribo sin luz artificial”. Uma coletânea de entrevistas, feita em momentos distintos que acenaram a possibilidade de Saber de Derrida através da sua fala - que melhor representa a tradução da sua escritura – Para mim funcionou como se estivéssemos numa conversa [literalmente, versando a dois ], pois tornou-se possível, conhecê-lo [e admirá-lo], um pouco melhor. 
Por força da minha formação inicial – sou graduada em Fonoaudiologia -  até chegar a este livro, ainda procurava um método. Apesar de Derrida alertar da “cilada” que consiste em usar todas as nossas garantias de racionalidade, querer encaixar e pensar nas garantias, racionais, o que acaba nos encaminhando para o pensamento metafísico. Evoco palavras do Prof. Silas Borges Monteiro – partilhadas em sala de aula -  que diz diante de um texto de Derrida, só são possíveis, as interjeições. Uau! Segundo sua explanação, Derrida usa como estratégia esse modo de dizer das coisas que podem ser ditas de maneira que são e ao mesmo tempo não são. Se por um lado, esta forma demonstra seu estilo; por outro lado é um convite ao leitor para que diga o que tem a dizer. 
DO TEXTO:
A entrevista intitulada de Dispersão de vozes, foi originalmente concebida sob o título de “Las Artes Del Espacio” concedida em Laguna Beach, Califórnia em 28 de abril de 1990 a Peter Brunette e David Wills e publicada inicialmente em: Desconstrução e artes Visuais da Universidade de Cambridge em 1994, cap. 1,  p. 9-32. Em 1999, Derrida agregou-a outras entrevistas e as converteu em um livro: No escribo sin luz artificial. Valladoliz: Ediciones Mauricio Jalón; ainda sem tradução para o português
O cenário de fundo para esta entrevista estava relacionado as artes do espaço.Como primeira provocação, os entrevistadores o arguem sobre o fato de sua proclamada “incompetência técnica” em vários âmbitos do seu trabalho (por exemplo: sobre arquitetura, cinema), não funcionar como impeditivos para que escreva sobre um amplo número de assuntos que estão “fora” de sua formação. É provocado para definir os limites do que ele traz  a cada domínio, sem saber onde colocar exatas, tais limites.
Derrida responde esta questão partindo da sua competência fornecida pela formação filosófica, Afirma, ter inventado um certo programa, uma certa matriz de investigação  que permite começar a pensar sobre as questões – perguntas sobre a competência em termos gerais. 
Ao aproximar-se de uma obra literária, Derrida ressalta apresentar sempre o mesmo gesto: o de sempre tentar respeitar a singularidade de uma obra. Este gesto é para encontrar, ou pelo menos procurar, o que este trabalho é, o seu poder de resistência à autoridade exercida pelo discurso filosófico sobre o assunto. 
O mote desta arguição,  fala sobre “ARTES VISUAIS”. Derrida as contextualiza dentro das artes espaciais; e como questão geral das artes do espaço, porque, para ele a resistência à autoridade filosófica parece ser produzida dentro de uma certa experiência de se espacializar o espaço. Em outras palavras, a resistência ao logocentrismo tem uma melhor chance de aparecer nesta arte.

Referências Bibliográficas
DERRIDA. No escribo sin luz artificial. Valladoliz: Ediciones Mauricio Jalón, 1999.